A pé diabético classificação é uma ferramenta indispensável para o enfermeiro que atua na avaliação e no manejo de lesões em pacientes com diabetes mellitus. Entre os sistemas existentes, a Classificação de Wagner é a mais utilizada na prática clínica brasileira por sua simplicidade, capacidade de orientar condutas e correlação com o prognóstico. Compreender seus seis graus permite ao profissional definir a urgência do tratamento, estimar risco de amputação e padronizar o registro no prontuário.
Neste guia, você vai entender o que é o pé diabético, como aplicar a Classificação de Wagner passo a passo, quais fatores de risco rastrear e quais cuidados de enfermagem são prioritários em cada grau da lesão.
O que é o pé diabético
O pé diabético é uma complicação crônica do diabetes mellitus caracterizada por infecção, ulceração ou destruição de tecidos profundos do pé, associada a anormalidades neurológicas e a vários graus de doença vascular periférica nos membros inferiores. A definição é proposta pelo Grupo Internacional de Trabalho sobre Pé Diabético (IWGDF) e adotada pelo Ministério da Saúde do Brasil.
A condição é responsável por aproximadamente 85% das amputações não traumáticas de membros inferiores no Brasil. A identificação precoce e a classificação adequada da lesão pelo enfermeiro são determinantes para reduzir esse desfecho.
Classificação de Wagner: os 6 graus
Proposta por Meggitt em 1976 e popularizada por Wagner em 1981, a Classificação de Wagner-Meggitt avalia a profundidade da lesão e a presença de infecção ou gangrena. Vai de zero a cinco e orienta tanto o tratamento clínico quanto a indicação cirúrgica.
| Grau | Descrição | Conduta principal |
|---|---|---|
| 0 | Pé em risco, sem úlcera aberta, mas com deformidades, calosidades ou pele íntegra vulnerável | Educação, calçado adequado, prevenção |
| 1 | Úlcera superficial, sem infecção, atinge derme | Curativo, alívio de pressão, controle glicêmico |
| 2 | Úlcera profunda atingindo tendão, cápsula articular ou osso, sem abscesso ou osteomielite | Curativo avançado, desbridamento, antibioticoterapia se sinais flogísticos |
| 3 | Úlcera profunda com abscesso, osteomielite ou artrite séptica | Internação, desbridamento cirúrgico, antibioticoterapia sistêmica |
| 4 | Gangrena localizada (antepé, calcâneo ou dedos) | Avaliação vascular urgente, amputação parcial |
| 5 | Gangrena extensa de todo o pé | Amputação maior (transtibial ou transfemoral) |
Grau 0 — Pé em risco
Não há ferida aberta, mas há sinais de alerta: hiperqueratose plantar, deformidades (dedos em garra, hálux valgo), pé de Charcot, neuropatia detectada no monofilamento de 10 g ou histórico prévio de úlcera. A intervenção do enfermeiro é educacional e preventiva.
Grau 1 — Úlcera superficial
Lesão limitada à derme, sem comprometimento de planos profundos e sem sinais clínicos de infecção. Costuma surgir em pontos de pressão como cabeça de metatarso e calcâneo. O foco do tratamento é remover a carga sobre a lesão (off-loading) com palmilhas, botas removíveis ou gesso de contato total.
Grau 2 — Úlcera profunda
A lesão chega ao tendão, cápsula articular ou osso, mas sem abscesso ou osteomielite. O sinal de prova com sonda óssea positiva (probe-to-bone) levanta forte suspeita. Desbridamento de tecido inviável e uso de coberturas avançadas são essenciais.
Grau 3 — Infecção profunda
Presença de abscesso, osteomielite confirmada ou artrite séptica. O paciente geralmente necessita de internação, hemoculturas, antibioticoterapia sistêmica orientada por cultura e desbridamento cirúrgico amplo.
Graus 4 e 5 — Gangrena
No grau 4, a gangrena é localizada (geralmente em dedo, antepé ou calcâneo), com chance de salvamento parcial do membro. No grau 5, a gangrena se estende por todo o pé, exigindo amputação maior. A avaliação vascular com Doppler arterial e angiografia é mandatória.
Fatores de risco para pé diabético
- Tempo de diabetes superior a 10 anos
- Mau controle glicêmico (HbA1c maior que 7%)
- Neuropatia periférica diagnosticada pelo monofilamento de Semmes-Weinstein
- Doença arterial periférica (pulsos diminuídos, ITB menor que 0,9)
- Deformidades nos pés e calosidades
- Histórico de úlcera ou amputação prévia
- Tabagismo, retinopatia e nefropatia diabética
- Calçado inadequado e baixa adesão à autoinspeção do pé
Como avaliar o pé diabético na prática
A avaliação inicial deve seguir um roteiro estruturado, idealmente em todas as consultas de enfermagem de paciente diabético.
- Inspeção: coloração, integridade da pele, deformidades, calosidades, micose interdigital e estado das unhas.
- Palpação: pulsos pedioso e tibial posterior, temperatura, edema e turgor.
- Teste neurológico: monofilamento de 10 g em 4 pontos plantares, diapasão de 128 Hz e reflexo aquileu.
- Avaliação vascular: índice tornozelo-braquial (ITB). Valor abaixo de 0,9 indica doença arterial periférica.
- Documentação fotográfica: mensuração da lesão com régua descartável e descrição detalhada do leito.
Após a avaliação, classifique a lesão segundo Wagner e registre no prontuário com data, grau, dimensões, características do leito, exsudato e bordas.
Tratamento e cuidados de enfermagem por grau
O manejo do pé diabético é multidisciplinar e exige protocolo passo a passo. As condutas de enfermagem incluem:
- Controle metabólico: orientação sobre adesão à medicação, monitoramento da glicemia capilar e meta de HbA1c.
- Alívio de pressão (off-loading): botas, palmilhas, gesso de contato total ou repouso conforme indicação.
- Limpeza da lesão: soro fisiológico 0,9% morno em jato suave; evitar antissépticos citotóxicos como PVPI a 10% no leito da ferida.
- Desbridamento: cortante conservador feito pelo enfermeiro habilitado, autolítico com hidrogel ou enzimático com colagenase.
- Cobertura adequada: alginato de cálcio em exsudato moderado a intenso, espuma para proteção, prata para colonização crítica e hidrocoloide em lesões superficiais não infectadas.
- Sinais de alerta: orientar paciente e família sobre sinais flogísticos, febre, alteração do odor e mudança de coloração que exigem retorno imediato.
Dicas práticas para o enfermeiro
- Inclua a inspeção dos pés em todas as consultas do paciente diabético, mesmo na ausência de queixa.
- Use sempre o mesmo sistema de classificação na unidade para evitar discordância entre profissionais.
- Ensine o paciente a inspecionar os pés diariamente com auxílio de espelho e a lubrificar a pele evitando os espaços interdigitais.
- Oriente sobre corte reto das unhas, troca diária de meias e teste prévio da temperatura da água com a mão.
- Lembre-se: úlceras Wagner 0 e 1 mal manejadas evoluem em poucas semanas para grau 3 e amputação. A prevenção é a melhor conduta.
Perguntas Frequentes
Qual a diferença entre a Classificação de Wagner e a Universidade do Texas (UT)?
A Wagner avalia profundidade e gangrena em seis graus. A Classificação da Universidade do Texas combina profundidade (graus 0 a 3) com presença de infecção e isquemia (estágios A a D), sendo considerada mais completa para predição de amputação. Ambas são válidas, mas a Wagner é mais difundida na atenção básica brasileira.
O enfermeiro pode classificar a lesão sozinho?
Sim. A Resolução COFEN nº 567/2018 reconhece a competência do enfermeiro para avaliar e classificar feridas, indicar coberturas, realizar desbridamentos não cirúrgicos e prescrever cuidados. A classificação faz parte do processo de enfermagem e deve ser registrada no prontuário.
A partir de qual grau o paciente precisa de internação?
Geralmente a partir do grau 3, quando há abscesso, osteomielite ou infecção sistêmica. Pacientes grau 2 com sinais flogísticos importantes, descompensação glicêmica ou comprometimento vascular também podem ter indicação de internação para tratamento intensivo.
Conclusão
Dominar a Classificação de Wagner não é apenas memorizar seis graus. É reconhecer o pé em risco antes da úlcera aparecer, estratificar corretamente para encaminhar com urgência quando preciso e padronizar a comunicação entre os profissionais. O enfermeiro é a peça-chave nessa cadeia, da prevenção ao acompanhamento pós-amputação.
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