Diferenciar uma úlcera arterial de uma úlcera venosa é uma das competências clínicas mais importantes para o enfermeiro que atua com feridas crônicas. Embora ambas acometam os membros inferiores e possam parecer semelhantes em uma avaliação superficial, sua fisiopatologia, apresentação clínica e conduta terapêutica são completamente diferentes — e tratar uma úlcera arterial com a mesma abordagem da venosa pode levar a complicações graves, incluindo amputação. Neste guia prático, você vai entender como identificar, diferenciar e abordar corretamente cada uma dessas lesões.

O que é úlcera arterial e úlcera venosa

A úlcera arterial (também chamada de úlcera isquêmica) é uma lesão cutânea decorrente da redução do fluxo sanguíneo arterial para o membro, geralmente associada à Doença Arterial Obstrutiva Periférica (DAOP). A oferta insuficiente de oxigênio e nutrientes ao tecido leva à necrose e à formação da úlcera, classicamente nas regiões distais do membro inferior.

Já a úlcera venosa é causada pela hipertensão venosa crônica, secundária à insuficiência das válvulas das veias profundas ou superficiais. O acúmulo de sangue e o aumento da pressão hidrostática provocam extravasamento de plasma, deposição de hemossiderina e, eventualmente, ulceração — sendo a causa mais comum de feridas crônicas nos membros inferiores no Brasil.

Principais diferenças clínicas entre úlcera arterial e venosa

A diferenciação clínica é o primeiro passo para uma conduta segura. O enfermeiro deve avaliar localização, características da lesão, perfusão do membro, presença de pulsos e sintomas associados, como dor.

ParâmetroÚlcera ArterialÚlcera Venosa
LocalizaçãoDorso do pé, dedos, calcanhar, regiões de pressãoRegião maleolar medial (área de gaiter)
BordasBem delimitadas, irregulares, “em saca-bocado”Irregulares, planas, mal definidas
Leito da feridaPálido, necrótico, fibrina ou escara secaGranulação avermelhada, exsudato amarelado
ExsudatoEscasso ou ausenteModerado a abundante
DorIntensa, piora à elevação do membroLeve a moderada, alivia à elevação
Pele perilesionalFina, brilhante, sem pelos, fria, pálidaHiperpigmentada (dermatite ocre), edema, eczema
Pulsos pediososDiminuídos ou ausentesPresentes e palpáveis
Temperatura do membroFrioNormal ou quente

Fatores de risco

Fatores de risco para úlcera arterial

Fatores de risco para úlcera venosa

Como avaliar na prática

A avaliação do enfermeiro deve ser sistemática e incluir tanto a inspeção da ferida quanto o exame vascular do membro. Os passos essenciais são:

  1. Anamnese direcionada: investigue claudicação intermitente (dor à deambulação que melhora com repouso — típica da arterial) e sensação de peso/inchaço ao final do dia (típica da venosa).
  2. Inspeção da pele: observe coloração, temperatura, presença de pelos, hiperpigmentação, edema e dermatite.
  3. Palpação de pulsos: pedioso, tibial posterior, poplíteo e femoral. A ausência de pulsos é fortemente sugestiva de arteriopatia.
  4. Índice Tornozelo-Braquial (ITB): exame fundamental antes de qualquer terapia compressiva. Valores entre 0,9 e 1,3 são normais; abaixo de 0,9 indicam DAOP; abaixo de 0,5 indicam isquemia crítica.
  5. Avaliação da dor: aplique escala numérica e investigue fatores de melhora e piora.

Atenção: jamais aplique terapia compressiva (bota de Unna, meia elástica, multicamadas) sem antes confirmar o ITB. Comprimir um membro isquêmico pode precipitar necrose e amputação.

Conduta terapêutica

Tratamento da úlcera arterial

O foco do tratamento é restaurar o fluxo arterial. As ações de enfermagem incluem:

Tratamento da úlcera venosa

O pilar do tratamento é a terapia compressiva, considerada padrão-ouro segundo as diretrizes da WOCN e do Consenso Brasileiro de Compressão:

Dicas práticas para o enfermeiro

Perguntas Frequentes

É possível ter úlcera arterial e venosa ao mesmo tempo?

Sim. As chamadas úlceras mistas representam de 15 a 20% dos casos e exigem avaliação cuidadosa do componente predominante e do ITB para definir a intensidade da terapia compressiva. Nessas situações, a parceria com o cirurgião vascular é essencial.

O enfermeiro pode aferir o Índice Tornozelo-Braquial?

Sim. O ITB é uma avaliação não invasiva, realizada com Doppler portátil e esfigmomanômetro, e está dentro do escopo de atuação do enfermeiro capacitado, conforme respaldo das diretrizes do COFEN para o cuidado de feridas. É uma competência essencial para a estomaterapia e a enfermagem dermatológica.

Qual o erro mais comum no manejo dessas úlceras?

O erro mais grave é aplicar terapia compressiva sem antes confirmar o estado arterial do membro. Comprimir um membro isquêmico pode acelerar a necrose e levar à amputação. O segundo erro mais comum é interromper a compressão na úlcera venosa após o fechamento da lesão — sem manutenção, a recidiva é regra.

Conclusão

Diferenciar úlcera arterial de venosa é uma habilidade que separa o enfermeiro generalista do especialista em feridas. Pequenos sinais — a localização, a temperatura, o pulso, o comportamento da dor — fazem toda a diferença na conduta e no desfecho do paciente. Dominar essa avaliação é proteger seu paciente de complicações graves e elevar a qualidade da sua assistência. Conheça o Ensino Feridas Plus e aprofunde seus conhecimentos em avaliação vascular, terapia compressiva e manejo de feridas crônicas com a metodologia que já transformou milhares de carreiras na enfermagem.

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