A terapia por pressão negativa em ferida, também conhecida como NPWT (Negative Pressure Wound Therapy) ou VAC (Vacuum-Assisted Closure), é uma das tecnologias que mais transformaram a prática clínica em feridas complexas nas últimas duas décadas. Para o enfermeiro que atua em UTI, centro cirúrgico, ambulatório de feridas ou home care, dominar essa terapia deixou de ser diferencial e passou a ser requisito. Neste guia, o Ensino Feridas Plus reúne, em linguagem prática e baseada em evidências, tudo o que você precisa saber para aplicar a NPWT com segurança.
O que é a terapia por pressão negativa
A terapia por pressão negativa é um sistema de tratamento de feridas que utiliza uma pressão subatmosférica controlada, aplicada de forma contínua ou intermitente sobre o leito da lesão. O sistema é composto por uma espuma (geralmente de poliuretano ou álcool polivinílico) que preenche a cavidade da ferida, um filme transparente que veda o curativo, uma interface com tubo coletor e uma bomba de vácuo conectada a um reservatório que recolhe o exsudato.
A pressão negativa habitual varia entre -75 mmHg e -125 mmHg, sendo -125 mmHg o valor mais utilizado em adultos com feridas crônicas complexas. Em pacientes pediátricos, idosos frágeis ou feridas com tecido friável, valores menores são preferíveis.
Como a NPWT/VAC age na ferida
O mecanismo de ação da terapia por pressão negativa em feridas envolve quatro efeitos principais bem estabelecidos na literatura científica:
- Macrodeformação: a espuma comprime e aproxima as bordas da ferida, reduzindo a área de superfície da lesão.
- Microdeformação: em nível celular, a pressão negativa estimula a proliferação de fibroblastos e a angiogênese.
- Remoção de exsudato e mediadores inflamatórios: reduz edema perilesional e diminui a carga bacteriana.
- Manutenção de ambiente úmido e fechado: isola a ferida de contaminação externa e mantém condições ideais para a cicatrização.
Principais indicações da terapia por pressão negativa
O enfermeiro precisa reconhecer em quais cenários clínicos a NPWT/VAC apresenta melhor evidência. As indicações mais consolidadas são:
- Feridas cirúrgicas deiscentes (abdominais, esternotomia, ortopédicas).
- Lesões por pressão estágios 3 e 4 com cavidade e exsudato moderado a abundante.
- Úlceras de pé diabético com perda tecidual extensa, após desbridamento.
- Feridas traumáticas complexas, incluindo lesões por degloving.
- Enxertos de pele e retalhos, para estabilização e melhora da pega.
- Abdome aberto e fasciotomias.
- Feridas com fístulas controladas (com técnica e cobertura específica).
Contraindicações e precauções
Contraindicações absolutas
- Neoplasia maligna no leito da ferida.
- Osteomielite não tratada.
- Tecido necrótico não desbridado.
- Vasos sanguíneos, órgãos ou nervos expostos sem barreira de proteção.
- Fístulas não entéricas e não exploradas.
Precauções importantes
- Pacientes anticoagulados ou com distúrbios de coagulação.
- Sangramento ativo na ferida.
- Áreas com biofilme persistente sem manejo prévio.
- Pele perilesional frágil ou com dermatite extensa.
Parâmetros recomendados na prática
| Parâmetro | Indicação clínica | Valor habitual |
|---|---|---|
| Pressão negativa | Feridas crônicas em adultos | -125 mmHg contínua |
| Pressão negativa | Feridas frágeis, idosos, pediátricos | -75 a -100 mmHg |
| Modo | Maior estímulo de granulação | Intermitente (5 min on / 2 min off) |
| Troca de curativo | Feridas limpas | A cada 48 a 72 horas |
| Troca de curativo | Feridas infectadas | A cada 12 a 24 horas |
Passo a passo da troca do curativo de NPWT
- Higienize as mãos e organize todo o material em campo estéril antes de iniciar.
- Desligue a bomba e clampeie o tubo do paciente. Aguarde a despressurização.
- Solte cuidadosamente o filme transparente, irrigando com soro fisiológico para reduzir a aderência.
- Retire a espuma anterior verificando integridade e ausência de fragmentos no leito.
- Realize a limpeza do leito com soro fisiológico 0,9% morno e avalie tecido viável, exsudato, odor e pele perilesional.
- Corte a espuma exatamente no formato da ferida, sem ultrapassar as bordas para proteger a pele íntegra.
- Posicione a espuma na cavidade e aplique o filme adesivo cobrindo de 3 a 5 cm além das bordas.
- Realize um pequeno orifício no filme e instale a interface com tubo coletor.
- Conecte ao reservatório, ligue a bomba e confirme o selo observando o colapso da espuma.
- Registre data, hora, parâmetros, aspecto da ferida e volume drenado em prontuário.
Dicas práticas para o enfermeiro
- Proteja sempre a pele perilesional com película protetora ou hidrocoloide fino antes do filme.
- Em áreas de difícil selamento, como sacro e calcâneo, utilize tiras adicionais de filme ou pastas de barreira.
- Monitore o reservatório a cada turno: volume, coloração e odor do exsudato.
- Alarme da bomba não é um problema técnico — quase sempre indica perda de selo, kink no tubo ou reservatório cheio.
- Em pacientes em domicílio, oriente família sobre sinais de alerta: dor súbita, sangramento ativo, febre e perda de selo.
Complicações mais frequentes
- Maceração da pele perilesional por selo inadequado.
- Dor durante a troca, especialmente nas primeiras aplicações.
- Sangramento, sobretudo em pacientes anticoagulados.
- Aderência da espuma ao leito quando a troca é tardia.
- Falência do selo em locais anatomicamente complexos.
Perguntas Frequentes
Qual a diferença entre NPWT e VAC?
NPWT é o termo técnico-científico para terapia por pressão negativa em feridas. VAC é uma marca comercial pioneira (KCI/3M), porém o termo passou a ser usado de forma genérica na prática clínica. Na prática hospitalar brasileira, os dois termos costumam ser tratados como sinônimos.
Enfermeiro pode instalar e trocar o curativo de NPWT?
Sim. A indicação e a prescrição do dispositivo são compartilhadas com a equipe médica, mas a instalação, a troca e a manutenção do sistema fazem parte da assistência de enfermagem ao paciente com ferida complexa, conforme atribuições previstas pela legislação de exercício profissional e por protocolos institucionais.
Por quanto tempo a NPWT pode ser mantida?
Não existe um prazo fixo. O tempo depende da evolução do leito da ferida, presença de tecido de granulação e do plano terapêutico. A maioria dos pacientes mantém a terapia por períodos que variam de uma a quatro semanas, com reavaliação clínica a cada troca.
Conclusão
A terapia por pressão negativa em ferida é uma das ferramentas mais potentes que o enfermeiro tem à disposição para acelerar a cicatrização de feridas complexas, reduzir tempo de internação e melhorar a qualidade de vida do paciente. Aplicada com técnica adequada, indicação correta e monitoramento contínuo, a NPWT/VAC transforma desfechos clínicos e reposiciona o enfermeiro como protagonista do cuidado avançado em feridas. Conheça o Ensino Feridas Plus e aprofunde seus conhecimentos em terapias avançadas, protocolos clínicos e gestão de feridas complexas.
