A lesão por pressão (LPP) é uma das complicações mais prevalentes e evitáveis na assistência de enfermagem. Segundo dados do Ministério da Saúde, entre 10% e 40% dos pacientes hospitalizados desenvolvem algum tipo de LPP durante a internação. Conhecer a classificação correta, os fatores de risco e como estruturar um protocolo eficaz de prevenção e tratamento é uma competência essencial para o enfermeiro especialista em feridas.
O que é Lesão por Pressão?
Segundo o National Pressure Injury Advisory Panel (NPIAP), a lesão por pressão é um dano localizado à pele e/ou tecidos moles subjacentes, geralmente sobre uma prominência óssea ou relacionado ao uso de dispositivo médico. A lesão pode se apresentar como pele íntegra ou úlcera aberta e frequentemente é dolorosa. A intensidade e duração da pressão, associada à tolerância do tecido, determinam o grau de dano.
Em 2016, o NPIAP substituiu “úlcera por pressão” por lesão por pressão. O novo termo inclui lesões em pele íntegra (Estágio 1 e Lesão Tissular Profunda), que não são tecnicamente “úlceras”. No Brasil, o COFEN adotou a nova nomenclatura.
Classificação da Lesão por Pressão — Estadiamento NPIAP 2016
A classificação adotada pelo NPIAP — e seguida no Brasil pelo COFEN — divide as LPP em 6 categorias principais:
Área localizada de eritema que não embranquece à pressão digital. Pode ser difícil de detectar em peles de tonalidade escura. A área pode estar dolorosa, endurecida, amolecida ou com temperatura alterada em comparação ao tecido adjacente.
Perda parcial da derme com exposição do tecido dérmico viável. A ferida é úmida, rosa/vermelha, pode se apresentar como bolha intacta ou rompida. Tecido de granulação, esfacelo e escara NÃO estão presentes neste estágio.
Perda total da espessura da pele com tecido adiposo visível na ferida. Pode haver esfacelo e/ou escara. Há tecido de granulação e bordas enroladas (epibóle). A profundidade varia conforme a localização anatômica.
Perda total da espessura da pele com exposição de músculo, tendão, cartilagem ou osso. Pode apresentar esfacelo e/ou escara. Frequentemente inclui solapamento e tunelamento. O risco de osteomielite é alto neste estágio.
Perda total da espessura da pele e tecido onde a extensão do dano não pode ser confirmada porque está coberta por esfacelo e/ou escara. O desbridamento é necessário para definir o estágio real.
Pele íntegra ou não-íntegra com área de descoloração persistente e não-branqueável, vermelho escuro, marrom ou púrpura. Indica dano profundo em tecidos moles pela pressão e/ou cisalhamento na interface osso-tecido. Pode evoluir rapidamente.
Uma lesão por pressão nunca muda de estágio retroativamente durante a cicatrização. Uma LPP estágio 4 em cicatrização não passa a ser estágio 3 — ela continua sendo documentada como estágio 4 em cicatrização.
Fatores de Risco para Lesão por Pressão
Compreender os fatores de risco é fundamental para uma atuação preventiva eficaz. Eles se dividem em fatores intrínsecos (relacionados ao paciente) e extrínsecos (relacionados ao ambiente e assistência):
| Fatores Intrínsecos | Fatores Extrínsecos |
|---|---|
| Idade avançada (pele mais frágil) | Pressão prolongada sobre prominências ósseas |
| Imobilidade / paralisia | Cisalhamento e frição (transferências inadequadas) |
| Desnutrição e desidratação | Umidade excessiva (incontinuência, suorêse) |
| Incontinuência urinária / fecal | Dispositivos médicos inadequados ou sem inspeção |
| Neuropatia / perda de sensibilidade | Superfície de suporte inapropriada para o risco |
| Baixa perfusão tissular / anemia | Técnica inadequada de posicionamento |
| Hipoalbuminemia / edema | Ausência de protocolo e avaliação sistemática |
Avaliação do Risco: Escala de Braden
A Escala de Braden é o instrumento de avaliação de risco para LPP mais utilizado e recomendado no mundo, validado para o português e adotado pelo COFEN. Ela avalia 6 domínios, cada um pontuado de 1 a 4 (exceto Frição e Cisalhamento, de 1 a 3). Quanto menor o escore, maior o risco.
| Domínio | Pontuação | O que avalia |
|---|---|---|
| Percepção sensorial | 1–4 | Capacidade de responder ao desconforto relacionado à pressão |
| Umidade | 1–4 | Grau de exposição da pele à umidade |
| Atividade | 1–4 | Grau de atividade física |
| Mobilidade | 1–4 | Capacidade de mudar e controlar a posição do corpo |
| Nutrição | 1–4 | Padrão habitual de ingestão alimentar |
| Frição e Cisalhamento | 1–3 | Risco de dano por forças de atrito e deslizamento |
Interpretação dos escores da Escala de Braden:
- 19–23 pontos: Sem risco — monitoramento de rotina
- 15–18 pontos: Risco baixo — intervenções preventivas básicas
- 13–14 pontos: Risco moderado — protocolo estruturado de prevenção
- 10–12 pontos: Risco alto — intervenções intensivas e superfície de suporte
- ≤ 9 pontos: Risco muito alto — protocolo completo + avaliação multidisciplinar
Realize a avaliação na admissão de todo paciente e reavalie: a cada 24h em UTI, a cada 48-72h em enfermaria e sempre que houver mudança significativa no estado clínico.
Protocolo de Prevenção da Lesão por Pressão
A prevenção é sempre o melhor tratamento — e também o mais custo-efetivo. Um protocolo estruturado reduz a incidência de LPP em até 60% quando aplicado consistentemente. As principais intervenções são:
1. Avaliação e registro sistemático
Inspecione a pele integralmente a cada turno, com atenção especial às prominências ósseas: sacro, calcâneos, trocanters, maléolos e occipital. Fotografe qualquer alteração e registre descritivamente no prontuário.
2. Reposicionamento programado
Reposicione o paciente a cada 2 horas em pacientes de alto risco. Use o posicionamento lateral a 30° (evitar 90°). Eleve os calcâneos da cama com dispositivos próprios. Em pacientes com superfícies de suporte de alta especificação, pode-se estender para 4 horas com monitoramento contínuo da pele.
3. Cuidados com a pele
Mantenha a pele limpa, hidratada e seca. Use produtos barreira em caso de incontinuência (filmes e cremes protetores). Evite massagem sobre prominências ósseas — a fricção pode agravar o dano tissular. Use ácidos graxos essenciais (AGE) para hidratação e proteção da pele perilesional.
4. Nutrição e hidratação
Garanta aporte proteíco adequado (1,2 a 1,5 g/kg/dia) e hidratação suficiente. Solicite avaliação nutricional precoce para pacientes de risco. Suplementos de vitamina C, zinco e arginina podem ser benéficos em pacientes com LPP instalada ou de risco muito alto.
5. Superfícies de suporte
Utilize superfícies de suporte adequadas ao nível de risco do paciente: caixa de ovo (risco baixo), espuma viscoelástica (risco moderado) ou colchão de ar alternado (risco alto/muito alto). Lembre-se: a superfície de suporte complementa, não substitui o reposicionamento.
Tratamento da Lesão por Pressão por Estágio
O tratamento deve sempre ser baseado na avaliação completa da ferida: localização, estadiamento, tipo e quantidade de exsudato, presença de necrose ou biofilme, sinais de infecção e condição do tecido perilesional. A seguir, as principais condutas por estágio:
| Estágio | Objetivo principal | Coberturas indicadas |
|---|---|---|
| Estágio 1 | Aliviar pressão, proteger a pele íntegra | Filme transparente, espuma não aderente, AGE |
| Estágio 2 | Manter meio úmido, proteger tecido viável | Hidrocoloide, espuma (foam), hidrogel |
| Estágio 3 | Desbridar (se necessário), estimular granulação | Alginato, hidrofibra, espuma, NPWT* |
| Estágio 4 | Desbridar, tratar infecção, preencher espaço morto | Alginato com prata, hidrofibra com prata, NPWT*, avaliação cirúrgica |
| Não estadiável | Desbridar para estadiar e tratar adequadamente | Desbridamento enzimático ou cirúrgico conforme avaliação |
*NPWT = Terapia por Pressão Negativa (VAC Therapy)
Dicas Práticas para o Enfermeiro
- Documente com fotografias: registre a lesão na admissão e a cada troca de curativo. Use régua para medir dimensões (comprimento × largura × profundidade). A documentação protege o profissional e garante a continuidade do cuidado.
- Não pressione prominências ósseas: aplique coxins e almofadas de forma estratégica. Registre o esquema de posicionamento no prontuário e valide com a equipe de enfermagem e fisioterapia.
- Controle o microclima: calor e umidade locais aumentam o risco de LPP mesmo com reposicionamento adequado. Escolha coberturas que auxiliem no controle desses fatores.
- Avalie dispositivos médicos diariamente: cateteres, tubos, sondas, oximétros de pulso e fixadores são causas crescentes de LPP relacionada a dispositivos (LPRDM). Inspecione, mobilize e proteja a pele sob cada dispositivo.
- Envolva a família no cuidado: oriente acompanhantes sobre como realizar o reposicionamento correto, hidratar a pele e identificar sinais de alerta para buscar atendimento imediato.
- Bundle de prevenção: implemente um checklist diário estruturado (Bundle de LPP) com a equipe. A consistência das intervenções é mais importante do que a sofisticação dos recursos.
Perguntas Frequentes sobre Lesão por Pressão
Sim. O termo “lesão por pressão” substituiu “úlcera por pressão” em 2016 pelo NPIAP. O novo termo é mais preciso porque abrange também lesões com pele íntegra (Estágio 1 e DTI), que não são tecnicamente úlceras. O COFEN adotou a nova nomenclatura no Brasil.
A recomendação padrão é a cada 2 horas em pacientes acamados de alto risco. Com superfícies de suporte de alta especificação (colchão de ar alternado), pode-se estender para 4 horas, desde que a pele seja monitorada continuamente.
Sim. Os ácidos graxos essenciais (AGE), como o óleo de girassol, são amplamente indicados na prática de enfermagem para proteção e hidratação da pele perilesional. Sua eficácia é respaldada por evidências científicas e protocolos do Ministério da Saúde.
Sim. Conforme a Resolução COFEN 569/2018, o enfermeiro tem autonomia para prescrever e implementar coberturas para o tratamento de lesões, incluindo LPP, desde que dentro de protocolos institucionais estabelecidos ou de acordo com sua capacitação profissional e legislação vigente.
Sim. Calcâneos com escara estável, seca, aderida, sem eritema, flutuação ou edema são cobertos e monitorados — a escara pode funcionar como “curativo natural”. Avalie sempre individualmente e consulte o protocolo institucional e as diretrizes do NPIAP.
Conclusão
A lesão por pressão continua sendo um dos principais indicadores de qualidade assistencial em saúde. Dominar a classificação NPIAP, aplicar a Escala de Braden e implementar protocolos estruturados de prevenção e tratamento são competências que definem o enfermeiro especialista em feridas — e fazem a diferença real para o paciente e para a instituição.
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